A poesia não serve para nada que seja mensurável. Ela não resolve um problema prático, não acelera uma rotina e não nos prepara para um teste de desempenho.

A poesia não é útil, e é justamente na sua gratuidade que reside a sua força mais bonita.

Foi o professor Luiz Percival (@luizpercival) quem nos lembrou desse respiro necessário ao compartilhar e recitar, em seu perfil no Instagram, dois trechos luminosos do escritor italiano Italo Calvino no livro Seis Propostas para o Novo Milênio (Ed. Companhia das Letras, 2010). Com a sua voz que dá vida ao texto, o professor resgatou passagens que nos ajudam a compreender o lugar insubstituível da palavra escrita nos dias de hoje.

“[…] numa época em que outros media triunfam, dotados de uma velocidade espantosa e de um raio de ação extremamente extenso, arriscando reduzir toda comunicação a uma crosta uniforme e homogênea, a função da literatura é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando mas antes exaltando a diferença, segundo a vocação própria da linguagem escrita.” (pág. 58)

A literatura abre uma fenda e desacelera o tempo. Não tenta nos deixar “iguais”, mas celebra a beleza do que é singular, estranho.

Na outra passagem, Calvino toca no mistério daqueles que encontram no livro um abrigo:

“É certo que a literatura jamais teria existido se uma boa parte dos seres humanos não fosse inclinada a uma forte introversão, a um descontentamento com o mundo tal como ele é, a um esquecer-se das horas e dos dias fixando o olhar sobre a imobilidade das palavras mudas.” (pág. 65)

A literatura nasce desse “descontentamento suave”, do desejo de não aceitar a realidade apenas como ela se apresenta na superfície e habitar a imaginação. Para a infância e para a vida adulta, esse espaço de refúgio é fundamental para que possamos nos humanizar, ampliar nossas visões e repertórios e acolher nossas próprias complexidades e encantamentos.

A poesia não é útil: e que bom que é assim.

Para ver e ouvir:

Gostou dessa reflexão? Não deixe de conferir o vídeo do professor Luiz Percival em nosso Instagram, onde ele recita esses trechos de Calvino e nos convida a parar um minuto para ouvir a força das palavras.

Texto: Camila da Costa Silva
Conteúdo e comunicação da editora Projeto

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A poesia não é útil (e é exatamente por isso que precisamos dela)