Em que momento da vida decidimos que os livros com ilustrações, textos poéticos, brincadeiras com a linguagem deixaram de ser para nós? Em nossa cultura, existe uma fronteira invisível e muitas vezes equivocada que separa o que é “leitura de criança” do que é considerado “leitura adulta”. No entanto, quando nos aproximamos da boa literatura dita infantil, descobrimos que a literatura não tem idade.

Nas últimas décadas, especialistas e teóricos têm repensado até mesmo a própria nomenclatura da área. Cada vez mais se fala sobre literatura para as infâncias ou sobre a literatura integrada à cultura da infância. Essa mudança aponta para a infância como uma dimensão permanente da existência humana, muito além da marcação dos anos. É o lugar da curiosidade, da imaginação e do brincar.

A armadilha do utilitarismo

A literatura voltada para a infância opera no registro do afeto e da criação. Um bom livro oferece múltiplas camadas de leitura, onde o texto e a imagem conversam, criando metáforas e reflexões profundas sobre os mais variados temas. Não é preciso uma conclusão moral, ou algum aprendizado a ser utilizado a partir dali. É preciso, apenas, estar presente nas possibilidades infinitas de uma história ou de um poema.

Um livro para a infância é convite para um reencontro com a dimensão lúdica da linguagem, com a capacidade de inventar novos sentidos para as coisas. Por que crescer e perder isso?

A cultura da infância como território de liberdade

Como nos lembram as reflexões sobre a cultura da infância, a literatura direcionada aos pequenos é, antes de tudo, uma manifestação artística. E, como toda boa arte, ela não se esgota em um único público.

Autores e ilustradores contemporâneos criam obras que desafiam até mesmo os leitores mais experientes, utilizando a ironia, a síntese e a composição gráfica. Ao ler essas obras com uma criança (ou em momentos de solitude), o adulto deixa de ser apenas o “mediador” para se tornar companheiro de jornada. Abre-se um espaço de escuta horizontal, onde o riso, o espanto e a dúvida são compartilhados sem hierarquia.

A infância que habita em nós

Carregamos a infância dentro de nós de zero a cem anos. Precisamos da imaginação não para “escapar” da realidade, mas para sermos capazes de vivê-la, interpretá-la e transformá-la.

A literatura para as infâncias é um refúgio que nos devolve o direito à brincadeira de palavras, acolhe nossas esquisitices e nos lembra que a vida não precisa ser apenas séria e mensurável. Que tal abrir um livro para a sua infância hoje?

Para aprofundar:

Se você deseja se aprofundar no papel da literatura na vida de leitores de todas as idades, vale conferir o trabalho destas pesquisadoras e autoras:

Yolanda Reyes: A educadora colombiana defende o livro como um espaço de encontro intergeracional e mostra como a poesia e as histórias acolhem o leitor de 0 a 100 anos em suas zonas de afeto e mistério. Link:https://emilia.org.br/yolanda-reyes/ 

Michèle Petit: A antropóloga francesa aborda o papel da arte e da leitura como uma pausa necessária no utilitarismo do cotidiano, permitindo que adultos e crianças reconstruam seus repertórios íntimos. Link: https://lunetas.com.br/michele-petit-nos-convida-a-encontrar-beleza-mesmo-na-crise/ 

Cultura da infância e literatura: recomendamos o artigo “A literatura infantil ou a cultura da infância?”, de Beatriz Helena Robledo, na Revista Emília. Link: https://emilia.org.br/a-literatura-infantil-ou-a-cultura-da-infancia/

Literatura “infantil” não é só para crianças: ludicidade, imaginação e o resgate da infância na vida adulta