Texto de Beth Baldi
Como fazer para que os jovens se interessem pelos livros? O que dar a eles para que gostem de ler?
Essas são perguntas que Mempo Giardinelli, escritor, jornalista e professor argentino, levantou para tratarmos sobre o papel da biblioteca e da leitura no desenvolvimento da sociedade. Segundo o autor, sempre que ele fala sobre o tema — sendo também presidente de uma fundação em seu país voltada para a formação de leitores — essas duas perguntas lhe são feitas por professores, bibliotecários ou pais, que se queixam de que “os jovens não gostam de ler”. Este texto é uma reflexão a partir de suas falas na ocasião de sua vinda ao Brasil, durante a 60ª Feira do Livro de Porto Alegre, e que permanecem atuais.
O papel do adulto na formação do leitor
“Quem não gosta de ler são os adultos!”. Esta é a primeira provocação de Giardinelli a seus interlocutores. Ele a repetiu várias vezes, classificando como injusta a acusação contra os jovens e contando que nunca viu uma criança ou adolescente recusar ouvir uma história diante de um oferecimento para contar-lhe. A partir daí, apontou outras razões para explicar a falta de leitores e, então, trouxe a sua proposta.
Giardinelli criticou programas escolares e universitários que deixam de lado os clássicos da literatura local e universal, inclusive em cursos como os de Letras e Biblioteconomia. Ele questiona como professores e bibliotecários que não leem novelas, poesias ou contos podem enamorar de literatura os jovens que frequentam suas aulas e bibliotecas. Como bibliotecários, arquivistas e documentadores que não leem podem indicar ou recomendar livros a quem está realmente interessado ou se iniciando na leitura? Como professores que mantêm uma relação apenas teórica com a literatura podem apaixonar seus alunos? Só poderemos enamorar as crianças e os jovens da literatura estando nós mesmos enamorados!
Bibliotecas e o direito ao acesso
Para o pesquisador, a maior parte das bibliotecas, por serem escuras, fechadas, opressivas e feias, expulsam os leitores em vez de atraí-los. Ele questiona: “Quem vai querer ler ali?” e “Por que elas não são espaços abertos, bem iluminados, alegres e bonitos, convidativos como um shopping center, por exemplo?”.
Segundo ele, há um tratamento burocrático dado aos frequentadores das bibliotecas, chamados de “usuários” e proibidos de quase tudo dentro desses ambientes, além de horários de funcionamento (normalmente comerciais) que seguem na contramão da disponibilidade das pessoas para usufruírem do acervo. Esta é a pergunta que ele repete para instigar: “Queremos leitores apaixonados ou usuários?”.
A leitura como ato de amor e presença
A proposta, enfim, é derrubar os argumentos de quem diz que não lê por falta de tempo ou porque o livro é caro, lembrando que ele custa o mesmo que uma pizza. Além disso, a leitura de um poema, por exemplo, não leva mais de um minuto e meio, e a de um conto talvez tome 5 ou 10 minutos, enquanto as telas capturam nossa atenção por horas a fio.
Pensando a leitura como a ampliação da capacidade de amor de uma sociedade, Mempo afirma que o melhor caminho, talvez o único, para formarmos os leitores que queremos seja LER para eles. Não falar de leitura, fazer análises ou classificações: apenas LER!
“Ler em voz alta pode ser uma revolução! É um trabalho fantástico e baratíssimo!”, ensina-nos o autor. Ele nos convida a experimentar em casa: “Façam a prova! Em algum momento, à noite, desliguem as telas e leiam com quem estiver por perto (cônjuges, filhos, avós) um poema, um conto, qualquer coisa. Não precisa ser mais de 10 minutos; no começo, até menos — 2, 3 ou 4 minutos. Façam isso vários dias seguidos e verão que, depois de um tempo, se não o fizerem, alguém vai reclamar: ‘Por que não tem leitura hoje?’”.
Ilustrando essa posição, ele contou sobre o programa que sua fundação desenvolve há muitos anos na Argentina, chamado “Avós Contam Contos”, que, sob essa mesma filosofia, garante que, uma vez por semana, avós leiam histórias em escolas e outras instituições. Não há investimento financeiro; há apenas amor e tempo.
Ele sugere que também se pode ler na empresa e, claro, na escola, de um jeito que torne a leitura uma atividade natural da vida, praticada todos os dias — com três minutos de leitura para começar a jornada, por exemplo. Sublinha, ainda, ser importante escolher bem o que se lê e ler com gosto, elegância e paixão.
São propostas que plantam sementes: não é preciso mais do que amor, tempo e desejo de compartilhar para construir uma sociedade leitora. É urgente começarmos o quanto antes, pois uma sociedade sem leitores é uma sociedade condenada ao suicídio cultural.
(*) Saiba mais sobre o biografia e os livros do escritor em www.mempogiardinelli.org. Além de seus livros de ficção, recomendo um ensaio de 2006, que já tem tradução em português: Voltar a ler – propostas para uma nação de leitores, da Cia Ed. Nacional.
